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terça-feira, 9 de março de 2010

Rei da vela

A muito contragosto, fui parar com o Zé e a Elena no cinema neste fim de semana. Não para assistir a um filme, como todo e qualquer mortal, mas QUATRO! O Zé queria assistir a todos os concorrentes do Oscar – nós já tínhamos visto o Bastardos Inglórios juntos – assim como o o xará dele, o Zé Wilker. Pensando bem, até o jeito de falar dos dois é meio parecido…

Enfim, bem que tentei fugir desse programa de índio, ou melhor, de vela. Estava cheio de trabalho pra fazer e a minha ideia era até dar um pulo no escritório, de onde os meus chefes, aliás, parecem não sair nunca. Mas quem disse que o Zé me largou?

Meu colega de apartamento criou uma estranha fobia nas últimas semanas e não quer ficar sozinho de jeito nenhum. Sugeri a ele chamar a Elena para fazer companhia, mas só foi citar o nome dela pro nervosismo aumentar ainda mais.

O resultado é que tive de acompanhá-lo até o cinema, onde ele havia combinado de encontrar a namorada, e ainda emprestar dinheiro para as entradas, já que o meu amigo anda sempre duro. Uma ironia para quem me acusou no post passado de querer ficar com ela.

- Não quer ficar e assistir o filme com a gente? Estão falando superbem desse argentino – ele convidou.

- Não, obrigado – respondi. Vou deixar vocês namorarem um pouco e…

- Deixa disso, você não atrapalha nada, não é Elena?

Ela deu aquele sorrisinho amarelo que vocês podem imaginar, como se a culpa fosse minha. E assim assistimos aos dois filmes no sábado e outros dois no domingo, sempre no maior climão, exceto pelo meu amigo, que comentava empolgado sobre os filmes como se Elena e eu fôssemos dois críticos de arte.

Pra fechar a noite, quando voltamos pra casa o Zé quase implorou para eu assistir à cerimônia do Oscar com eles. Só pude ir para o quarto e dormir depois que a Elena resolveu pedir um táxi e ir pra casa. E naquela hora o Guerra ao Terror só tinha ganho um dos seis Oscars daquela noite…

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pandora

Acho que a situação deste blog passou um pouco dos limites. A maioria não sabe e espero que jamais saiba quem sou, mas a quantidade de pessoas que já conhecem a minha identidade verdadeira começa a me incomodar, e muito.

Primeiro, o próprio Felipe. Depois, a Vanessa e alguns dos amigos nerds do Felipe e que se acham o máximo só porque têm aqueles iBostas e outras bugigangas tecnológicas. E pensar que a minha intenção, no início, era mostrar o blog para o pessoal da faculdade. Ainda bem que mudei de ideia…

Enfim, acho que chegamos a um ponto de ruptura, agora que a garota com quem estou saindo não só sabe quem sou de verdade como acompanha o blog. Por sorte, consegui convencê-la de que a maioria das coisas que o Felipe escreve aqui não passa da tosca imaginação dele.

Imaginação esta que não foi capaz de ver que a Elena nada tem a ver com a personagem do Street Fighter a quem ele se inspirou para dar o apelido. O tonto provavelmente nem se deu conta de que a pele mais escura vem da ascendência libanesa da família dela. Ao contrário de mim, que viro um camarão quando vou à praia, a pele dela fica bronzeada de verdade.

Pois bem, no sábado combinamos de ir ao cinema assistir Avatar. É claro que, por mim, jamais perderia tempo com esse lixo hollywoodiano, mas achei que seria forçar a barra levá-la para ver algum europeu que, provavelmente, só eu entenderia.

Elena é, de fato, muito diferente das garotas com quem saí antes, e que na verdade se pareciam muito mais comigo. Imaginem que ela não sabia quem era Truffaut! Olhe que as outras poderiam até não saber, mas jamais admitiriam com tanta facidade e sem peso na consciência como ela fez.

Essa falta de conhecimentos básicos, que seria fatal para qualquer início de relação comigo, acabou não atrapalhando. Elena parecia me conhecer tão bem – provavelmente por ter me lido aqui – que era como se estivéssemos juntos há muito tempo. É, assim como o personagem principal do filme, estou me identificando cada vez mais com o meu avatar. Resta saber se conseguirei, ou desejarei, voltar…

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Escola de Bastardos

Eu sou um tipo meio viciado nas coisas que faço, admito. Quando começo algo, não consigo parar enquanto não termino. Foi assim neste feriado em que acabei não viajando, por conta do maldito mapa de uma fase do jogo que estou desenvolvendo com dois amigos. Vocês não sabem o quanto é difícil desenhar uma palmeira decente. OK, prometo parar com a nerdice… O_O

Imaginei que teria o apartamento só para mim neste fim de semana prolongado, mas o Zé também ficou em Sampa, envolvido com as coisas da mostra de cinema. Ele gastou uma grana que não tinha para comprar um daqueles ingressos especiais, que dão direito a entrada em todas as sessões.

Nos falamos pouco até ontem à tarde, quando a Lara apareceu em casa. Era a primeira vez que a encontrava desde o incidente de semanas atrás. Ficou na cara que o Zé não gostou nada de vê-la ali, ele tinha prometido não trazê-la de volta ao apê para que eu não pudesse comentar mais nada no blog.

- Nós vamos ao cinema, quer ir também? – ela me convidou.

- NÃO! – disse o Zé, quase gritando - Esses filmes da mostra são muito cabeça pra ele.

- Quer saber, também estou cansada da mostra, por que não vamos assistir ao novo do Tarantino?

- Não sei, não quero atrapalhar nada – eu falei.

- Não vai, pode ter certeza – Lara disse, puxando meu braço e me tirando quase à força do sofá, com laptop e tudo.

Fiquei meio sem graça, mas precisava me distrair um pouco depois de quase três dias inteiros sem pôr os pés fora de casa. Fomos os três no carro da Lara. Notei uma mudança no comportamento dela com o Zé. Aquele ar de admiração deu lugar a uma ironia, o jeito como falava com ele era desafiador o tempo todo. Já o meu amigo parecia bem menos confiante, mas lutava para manter a pose e descarregava a raiva em mim sempre que podia.

Não vou aqui falar do filme, pois não sei se quem lê este blog já assistiu (mas deveria!). Até eu, que não sou um grande fã do Tarantino, saí de alma lavada do cinema. Foi o que eu disse a Lara quando ela me perguntou, já na praça de alimentação, o que eu achei do filme. O Zé tinha uma opinião mais elaborada, e era algo mais ou menos assim:

- Tarantino realizou um caso raro de “wishful thinking”, de realizar na tela algo que todos nos desejamos. Houve outras fantasias históricas sobre Hitler, mas não em forma de aventura picaresca com os fatos e estereótipos…

Lara olhou-me por um instante, parou para pensar, e disparou:

- Espere, acho que li isso em algum lugar. Zé, essa opinião é sua mesmo ou de algum crítico de cinema?

- Ora, ora, é minha, como não? É claro que eu li algo a respeito do filme, é minha obrigação como estudioso, assim como vc, mas, ora, eu…

Ele gaguejou mais um pouco, até ela interrompê-lo com um beijo bem quente, que (ok, confesso!) me deixou com uma ponta de inveja e saudades das minhas “emos oferecidas”, como diz o Zé.

No carro, Lara insistiu para subir ou para eles irem à casa dela, mas o Zé estranhamente alegou estar ocupado em um projeto, falando no mesmo tom gaguejante.

Quase me ofereci para ir no lugar dele - e acho que ela seria capaz de aceitar, só pelo descaso - mas o maldito instinto de camaradagem masculina falou mais alto.

Acabamos a noite com os dois assistindo “Super Escola de Heróis”, na Tela Quente - ele, para variar, falando mal do filme o tempo inteiro.